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18/01/2011

VIVER E NÃO APENAS EXISTIR

Quando ainda habitante das cavernas e diante da fragilidade essencial do corpo em sua luta pela sobrevivência, nossos antepassados desenvolveram sensações aguçadas, percepções mais imediatas. Não fora assim e jamais sobreviveria a colossal ameaça da natureza e riscos de adversários temíveis. A luta pela sobrevivência impunha estímulos a cada instante e em cada lugar que necessitavam ser apreendidos e assimilados. Desenvolvemos com acuidade e grandeza a sensibilidade do tato, da visão, do olfato, da audição e a degustação não era somente gesto de prazer, mas grito de sobrevivência.

Com o progresso, pouco a pouco, essas competências começaram a ser tornar menos importantes e a invenção da roda, entre outras, tornou obsoleta e desnecessária inevitável maratonas a pé. Criaram-se armas e artefatos e, pouco a pouco, os sentidos foram se embotando e o cérebro já não mais impunha seu domínio como estratégia de sobrevivência. Mais recentemente, a rapidez das conquistas tecnológicas criou instrumentos que dispensavam ao cérebro humano suas últimas sensibilidades e percepções e, sob determinados aspectos, quase que a razão de sua existência. Hoje, máquinas não apenas calculam e ajudam a pensar como quase pensam e resolvem, melhor que nos mesmos, os nossos problemas.

Essa excelência, entretanto, teve seu custo.

Máquinas e aparelhos que ajudam nossos sentidos foram tornando “preguiçosas” nossas acuidades para ampliar a percepção sensorial. De igual forma, todos nossos sentidos – visão, audição, olfato, tato e gustação – sofreram igual indolência provocada pelo fantástico avanço tecnológico. Realmente não é mais hoje essencial a aguda sensibilidade do faro, da audição, do toque, da visão e do paladar para sobreviver. A civilização urbana e o artefato tecnológico dispensaram a importância do sentido para a vida, mas não para a existência. E aqui se chega ao ponto crucial da missão desta crônica que é a de convencer como é fácil e como quase nada custa e como é extremamente delicioso desenvolver em nossos filhos e alunos a gloriosa reconquista de suas sensações. Como é ilimitadamente maravilhoso, com tão pouco esforço e não muito tempo, permitir a cada um deles o supremo prazer de degustar com aguda sensibilidade, escutar com acesa percepção, sentir seu tato como visão, conquistar privilegiado olfato de sensível perfumista e equipar seus olhos com a naturalidade de enxergar como há muito nos esquecemos de fazer.

Ao se aceitar a ciência da cognição como inefável conquista que torna prático e viável essa possibilidade não apenas estaremos abrindo a plenitude da inteligência e da criatividade humana, mas verdadeiramente mostrando o que significa “ser” ensinando a “viver”.



Prof. Celso Antunes